A caderneta de vacinação é um dos documentos mais importantes do primeiro ano. No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece gratuitamente, pelo SUS, todas as vacinas essenciais para proteger o bebê das doenças mais graves da infância. Este guia mostra o que o bebê recebe em cada idade, do que cada vacina protege, o que esperar de reação e o que fazer se atrasar uma dose. Tudo com base no calendário do Ministério da Saúde e nas recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

País coberto neste guia: Brasil. Calendário do Programa Nacional de Imunizações (PNI) — Ministério da Saúde, edição 2025, harmonizado com as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Fontes oficiais: gov.br/saude — Calendário Nacional de Vacinação · SBP — Calendário 2025.

Em outro país? Os esquemas variam de país para país. Em Portugal, consulte o Programa Nacional de Vacinação (PNV) — DGS. Em Angola, Moçambique, Cabo Verde e demais países lusófonos, o calendário é gerido pelos respectivos Ministérios da Saúde, geralmente alinhados às recomendações da OMS.

Por que vacinar no primeiro ano

O recém-nascido chega ao mundo com anticorpos passivos da mãe (transferidos pela placenta nas últimas semanas de gestação) e, se amamentado, com a proteção contínua dos anticorpos do leite. Essa defesa, porém, diminui rapidamente ao longo dos primeiros 6 meses, justamente quando o sistema imune do bebê ainda está se desenvolvendo.

As vacinas funcionam ensinando o sistema imune a reconhecer e responder a vírus e bactérias antes que a doença ocorra. No primeiro ano, o bebê recebe a maioria das doses primárias contra as doenças que historicamente mais matavam ou deixavam sequelas em crianças pequenas: tuberculose, hepatite B, difteria, tétano, coqueluche, poliomielite, sarampo, meningites, pneumonias, rotavírus, febre amarela e varicela.

Segundo a OMS, a vacinação infantil previne entre 3,5 e 5 milhões de mortes por ano no mundo todo.

Calendário do PNI no primeiro ano

O calendário abaixo segue o PNI 2025. As datas exatas podem variar por município (algumas cidades antecipam ou atrasam por logística local), mas a estrutura é nacional.

IdadeVacinas
Ao nascerBCG · Hepatite B (1ª dose)
2 mesesPentavalente (1ª) · VIP (1ª) · Pneumocócica 10 (1ª) · Rotavírus (1ª)
3 mesesMeningocócica C (1ª)
4 mesesPentavalente (2ª) · VIP (2ª) · Pneumocócica 10 (2ª) · Rotavírus (2ª)
5 mesesMeningocócica C (2ª)
6 mesesPentavalente (3ª) · VIP (3ª) · Influenza (campanha anual) · COVID-19 (esquema de 3 doses para grupos prioritários — confirme com o pediatra a Nota Informativa em vigor)
9 mesesFebre amarela (1ª dose)
12 mesesTríplice viral (SCR — sarampo, caxumba, rubéola) · Pneumocócica 10 (reforço) · Meningocócica C (reforço)

Importante: este é o calendário de rotina do SUS para 2025. Sempre confira a caderneta na UBS, porque o PNI atualiza periodicamente o esquema (datas, doses e composição). No primeiro ano de vida, o SUS oferece a meningocócica C; a meningocócica ACWY pelo SUS é restrita a adolescentes (11-14 anos), e a meningocócica B só está disponível na rede privada.

Vacina por vacina: do que protege e como reage

Ao nascer

BCG (na maternidade ou primeiro mês). Protege contra as formas graves da tuberculose (meningite tuberculosa, tuberculose miliar). É aplicada no braço direito e exige peso mínimo de 2 kg — prematuros abaixo desse peso recebem assim que atingirem 2 kg. Forma uma pústula que evolui em úlcera, crosta e cicatriz entre a 3ª e a 12ª semana. Esse processo é normal — não cubra, não passe pomada, não force a cicatrização. Procure orientação se houver gânglio inchado debaixo do braço maior que 3 cm, ou abscesso com drenagem prolongada.

Hepatite B (1ª dose). Idealmente nas primeiras 12 horas de vida. Protege contra a infecção pelo vírus da hepatite B, que pode causar hepatite crônica, cirrose e câncer de fígado anos depois. As doses seguintes vão dentro da pentavalente (2, 4 e 6 meses).

2, 4 e 6 meses

São as visitas mais "carregadas" de injeções — mas também as mais importantes.

Pentavalente (DTP + Hib + Hep B). Cinco doenças em uma:

  • Difteria, Tétano, Pertussis (coqueluche)
  • Haemophilus influenzae tipo b (causa de meningite e pneumonia)
  • Hep B (segunda, terceira e quarta doses)

Reação esperada: dor, vermelhidão e endurecimento no local; febre baixa nas primeiras 24-48h; irritabilidade e sonolência. A pentavalente do SUS usa o componente DTP de células inteiras, que tem mais reatogenicidade do que a versão acelular (DTPa) disponível na rede privada — ambas são seguras e eficazes. Em prematuros extremos com histórico de eventos adversos, a SBP indica avaliação no CRIE para uso de vacinas acelulares.

VIP — Vacina Inativada contra Poliomielite (injetável). Desde 2024, a VIP substitui a antiga "gotinha" (VOP) em todas as doses do esquema brasileiro, incluindo os reforços de 15 meses e 4 anos. Protege contra a paralisia infantil.

Pneumocócica 10-valente. Protege contra 10 sorotipos do Streptococcus pneumoniae, principal agente de pneumonia, otite média, meningite e bacteremia em crianças pequenas. A dose dos 12 meses é o reforço.

Rotavírus (oral, 2 gotas). Protege contra a gastroenterite por rotavírus, que era a principal causa de diarreia grave e desidratação em bebês antes da vacina. Há uma janela de idade rígida: a 1ª dose entre 1 mês e 15 dias e 3 meses e 15 dias; a 2ª entre 3 meses e 15 dias e 7 meses e 29 dias. Doses fora dessa janela não podem ser dadas (risco de invaginação intestinal aumenta). Por isso, atrasar essa vacina pode significar perdê-la para sempre — não dá para "atualizar depois". Se o bebê golfar ou vomitar logo após a dose oral, a orientação do PNI é NÃO repetir a aplicação no mesmo atendimento; a próxima dose segue o calendário normal.

Influenza (a partir dos 6 meses, na campanha anual). Protege contra a gripe sazonal. A primeira vez exige 2 doses com 30 dias de intervalo; nos anos seguintes, dose anual única.

3, 5 e 12 meses — Meningocócica C

Protege contra a meningite meningocócica do sorogrupo C, ainda comum no Brasil. Reação local leve, febre baixa eventual.

9 meses — Febre amarela

Uma única dose, em dose padrão (não fracionada para essa idade). Protege contra a febre amarela, doença grave transmitida por mosquitos. Reforço aos 4 anos. Vacina de vírus vivo atenuado: contraindicada em imunossuprimidos graves; em casos especiais (alergia grave a ovo, por exemplo), discuta com o pediatra ou um Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais (CRIE).

12 meses

Tríplice Viral (SCR). Sarampo, Caxumba e Rubéola. Vacina de vírus vivo atenuado. Reação esperada: febre 5 a 12 dias depois da aplicação (não é "vacina pegando tarde" — é o ciclo do vírus atenuado), eventualmente com manchas leves na pele que desaparecem sozinhas. O sarampo voltou a circular em vários estados — manter essa vacina em dia é proteção comunitária essencial.

Reforços de pneumocócica 10 e meningocócica C completam o ciclo do primeiro ano.

O que esperar nas 48 horas após a vacina

A maior parte dos efeitos colaterais aparece nas primeiras 24-48 horas e some sozinha. São sinais de que o sistema imune está trabalhando — não significam que a vacina "fez mal".

ReaçãoÉ esperado?O que fazer
Dor, vermelhidão, endurecimento no localSim, em até 50-80% das dosesCompressa fria nas 1ªs horas; depois compressa morna se ainda houver endurecimento
Febre até 38,5°CSim, em até 30% das dosesAntitérmico se desconforto; manter hidratação
Irritabilidade, sonolência, redução do apetiteSimAcolhimento, mais colo, mamadas mais frequentes
Choro mais intenso por algumas horasSimTudo bem; observe a duração
Pequenas manchas na pele 5-12 dias após tríplice viral / febre amarelaSimNão medicar, observar

Sinais de alerta — quando procurar atendimento

Embora raros, alguns sinais exigem avaliação médica imediata:

  • Febre acima de 39,5°C ou que não cede com antitérmico
  • Choro inconsolável por mais de 3 horas continuamente
  • Convulsão
  • Letargia importante — bebê "molinho", difícil de despertar
  • Inchaço extenso do membro vacinado (toda a coxa ou braço inchado)
  • Reação anafilática: urticária generalizada, inchaço de face/lábios, dificuldade respiratória, palidez extrema — geralmente nos primeiros 30 minutos, por isso muitos postos pedem para esperar antes de ir embora

Esses eventos são raríssimos (anafilaxia: cerca de 1 caso em cada 1 milhão de doses, segundo a OMS), mas devem ser registrados como Evento Adverso Pós-Vacinação (EAPV) para que o Ministério da Saúde monitore a segurança dos imunizantes.

Se atrasou uma dose

Boa notícia: o calendário vacinal é cumulativo. As doses que o bebê já recebeu continuam valendo. Você não precisa recomeçar nenhum esquema — só completar o que falta.

O que fazer:

  1. Leve a caderneta à UBS ou ao pediatra. Eles vão calcular o esquema de atualização.
  2. Quanto antes melhor, especialmente para vacinas com janela rígida como o rotavírus (que tem idade-limite absoluta).
  3. Não pule doses pensando "ele já recebeu uma vez, deve estar protegido". A imunidade duradoura depende do esquema completo.
  4. Vacinas simultâneas são seguras — o bebê pode receber várias no mesmo dia em locais diferentes, sem reduzir a resposta nem aumentar reações graves.

A SBP e o Ministério da Saúde reforçam: mais grave que a reação à vacina é a doença que ela previne. Sarampo, coqueluche, meningite e tuberculose voltaram a aparecer em locais com queda de cobertura vacinal nos últimos anos.

Mitos comuns — e o que diz a evidência

  • "Vacina causa autismo" — Mito. O estudo de Wakefield (1998) foi retirado por fraude; o autor perdeu o registro médico. Estudos posteriores com milhões de crianças (Hviid et al., Annals of Internal Medicine, 2019, com 657 mil crianças dinamarquesas) descartaram qualquer associação.
  • "Muitas vacinas de uma vez sobrecarregam o sistema imune" — Mito. Um bebê encontra trilhões de antígenos por dia só pelo ambiente; o conjunto de vacinas representa uma fração mínima. A combinação foi desenhada para ser segura e eficaz.
  • "Se ele tem cólica/refluxo, melhor adiar" — Mito. Cólica e refluxo não contraindicam vacinação.
  • "Bebê amamentado não precisa de vacina" — Mito. O leite materno protege contra várias infecções, mas não substitui as vacinas. Os dois se complementam.
  • "Antitérmico antes da vacina previne febre" — Não recomendado. Estudos mostraram que paracetamol profilático reduz a resposta imune a algumas vacinas. Use só se houver febre instalada.

Como organizar a caderneta no primeiro ano

Algumas práticas que ajudam:

  • Marque na agenda o próximo aposto vacinal assim que sair do anterior.
  • Tire foto da caderneta depois de cada visita — perda de caderneta é um problema sério para reconstruir o histórico.
  • Anote como o bebê reagiu (febre? quanto tempo? dor no local?). Isso ajuda o pediatra a orientar melhor a próxima dose.
  • Se for viajar para fora do Brasil, especialmente para regiões com surtos (sarampo, febre amarela, poliomielite), confirme com antecedência se o esquema está em dia ou se há vacinas adicionais recomendadas.

Resumo para a geladeira

  • Ao nascer: BCG + Hep B
  • 2 / 4 / 6 meses: pentavalente, VIP, pneumocócica, rotavírus
  • 3 / 5 meses: meningocócica C
  • 6 meses: começa a influenza (campanha anual)
  • 9 meses: febre amarela
  • 12 meses: tríplice viral + reforços

Vacinar em dia é o gesto preventivo de maior impacto que você faz no primeiro ano. Em caso de dúvida sobre uma dose específica, recorra à UBS, ao pediatra ou ao calendário oficial do PNI — nunca a redes sociais ou influenciadores.